Os mitos, em sua essência, eram relatos que entrelaçavam divindades e heróis de eras passadas, incorporando elementos de religiosidade e crenças ancestrais às práticas cotidianas e à percepção do mundo. Como fenômenos de narrativa oral, eles constituíam um sistema dinâmico de conhecimento, remodelado e enriquecido a cada recontagem. Através dessas histórias, as comunidades estabeleciam um conjunto de convicções que fundamentavam sua visão de mundo e forneciam um substrato sólido para a certeza coletiva. A natureza dos mitos refletia uma religiosidade politeísta, caracterizada pela ausência de uma doutrina revelada, um corpo sacerdotal estruturado ou textos sagrados canônicos, sustentando-se unicamente na tradição oral. Este aspecto é o que compreende a noção de teogonia, sistematizada em textos fundamentais por Homero no século IX e por Hesíodo no século VII a.C.
Inseridos neste contexto, os mitos desempenhavam um papel multifacetado, abrangendo desde a esfera religiosa até a vida prática, manifestando-se como expressão da interação do indivíduo com o universo e a coletividade. Esta integração era amplamente representativa da vida grega até o século V a.C., quando transformações significativas na organização social e política, especialmente a emergência do espaço público e da cidadania, começaram a redefinir a experiência cotidiana.
A polis, ou cidade-Estado, emergiu como uma entidade baseada na associação de seus cidadãos, para quem a coletividade e a partilha de recursos e direitos eram princípios fundamentais. Este novo paradigma de vida comunitária exigiu uma forma de pensamento que transcendesse o mitológico, dando lugar ao filosófico.
Sob uma perspectiva lockeana, a filosofia surge como um esforço para compreender a natureza da realidade, do conhecimento e da moralidade através da razão e da experiência, em vez de depender unicamente das tradições transmitidas oralmente. Este movimento rumo à racionalidade reflete uma busca por princípios universais que possam fundamentar a ordem social, política e ética, em contraposição à relatividade e à variabilidade intrínsecas às narrativas míticas. Portanto, a filosofia, conforme concebida nesta nova era do pensamento grego, representa uma evolução crucial na maneira pela qual o homem busca compreender seu lugar no mundo e organizar a sociedade de forma justa e equitativa.
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