Atravessamos o limiar entre 2025 e 2026 e fomos surpreendidos por algo que muitos julgavam impossível. Um povo historicamente sofrido, oprimido, submetido a imposições constantes e privado até do básico — alimento, dignidade, autonomia — passou décadas assistindo à dilapidação de suas próprias riquezas. O petróleo, que deveria ser instrumento de soberania, já não lhes pertencia havia muito tempo, servindo a interesses externos de potências que nada tinham a ver com o bem-estar da população.
Meses antes, houve encontros diplomáticos entre líderes do país americano e autoridades venezuelanas. Firmaram-se acordos. Palavras foram ditas. Promessas foram feitas. Mas, como tantas vezes na história, não foram levadas a sério. Os desmandos continuaram. A repressão se intensificou. A população foi novamente atingida, e a perseguição política tornou-se regra — cenário tristemente semelhante ao que hoje se observa em outro país da América Latina.
Persistiu-se, então, no mesmo erro fatal: chamar de democracia aquilo que nunca o foi. Fantasiar ditadura com o nome de democracia. Um discurso repetido por muitos que adoram pronunciar a palavra, mas desconhecem seu significado mais elementar.
Demokratía. Democracia. Poder do povo.
O conceito nasce na Grécia, imperfeito, limitado, cheio de exclusões — mas revolucionário. Plantou a semente do que hoje tentamos, nem sempre com honestidade, chamar de democracia moderna. Ela nunca foi um presente divino, nunca caiu pronta do céu. Sempre esteve em construção. Sempre esteve em disputa. Isso não é defeito: é sua própria natureza.
O nome já diz tudo. O poder emana do povo. A escolha de seus líderes se dá pelo sufrágio universal, pelo voto livre. Tudo o que se afasta disso não é nuance, não é relativização, não é “outra forma de democracia”. É ditadura. É opressão. É poder monocrático travestido de virtude. É perseguição política, manipulação de narrativas, ódio às soluções verdadeiramente democráticas.
Quando qualquer fração do poder passa a decidir sozinha, a agir sem limites, a se enxergar como entidade superior — como se fosse um deus — a democracia deixa de existir. Não há democracia relativa. Essa ideia é papo vazio, discurso de analfabeto político, sustentado por mentira deliberada e, muitas vezes, por traços claros de psicopatia social.
É evidente que o país ainda precisará se reorganizar internamente. Instituições precisam ser reconstruídas, regras reafirmadas, e a sociedade, protegida. A tutela temporária de um benfeitor pode ser necessária para impedir que o poder de outrora volte às mãos erradas. Não como forma de dominação, mas como contenção do caos.
Porque onde não há limites ao poder, não nasce ordem — nasce tirania. E onde não há democracia real, não existe povo soberano, apenas uma massa submetida.






