segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

    


Atravessamos o limiar entre 2025 e 2026 e fomos surpreendidos por algo que muitos julgavam impossível. Um povo historicamente sofrido, oprimido, submetido a imposições constantes e privado até do básico — alimento, dignidade, autonomia — passou décadas assistindo à dilapidação de suas próprias riquezas. O petróleo, que deveria ser instrumento de soberania, já não lhes pertencia havia muito tempo, servindo a interesses externos de potências que nada tinham a ver com o bem-estar da população.

    Meses antes, houve encontros diplomáticos entre líderes do país americano e autoridades venezuelanas. Firmaram-se acordos. Palavras foram ditas. Promessas foram feitas. Mas, como tantas vezes na história, não foram levadas a sério. Os desmandos continuaram. A repressão se intensificou. A população foi novamente atingida, e a perseguição política tornou-se regra — cenário tristemente semelhante ao que hoje se observa em outro país da América Latina.

    Persistiu-se, então, no mesmo erro fatal: chamar de democracia aquilo que nunca o foi. Fantasiar ditadura com o nome de democracia. Um discurso repetido por muitos que adoram pronunciar a palavra, mas desconhecem seu significado mais elementar.

Demokratía. Democracia. Poder do povo.

    O conceito nasce na Grécia, imperfeito, limitado, cheio de exclusões — mas revolucionário. Plantou a semente do que hoje tentamos, nem sempre com honestidade, chamar de democracia moderna. Ela nunca foi um presente divino, nunca caiu pronta do céu. Sempre esteve em construção. Sempre esteve em disputa. Isso não é defeito: é sua própria natureza.

    O nome já diz tudo. O poder emana do povo. A escolha de seus líderes se dá pelo sufrágio universal, pelo voto livre. Tudo o que se afasta disso não é nuance, não é relativização, não é “outra forma de democracia”. É ditadura. É opressão. É poder monocrático travestido de virtude. É perseguição política, manipulação de narrativas, ódio às soluções verdadeiramente democráticas.

    Quando qualquer fração do poder passa a decidir sozinha, a agir sem limites, a se enxergar como entidade superior — como se fosse um deus — a democracia deixa de existir. Não há democracia relativa. Essa ideia é papo vazio, discurso de analfabeto político, sustentado por mentira deliberada e, muitas vezes, por traços claros de psicopatia social.

    É evidente que o país ainda precisará se reorganizar internamente. Instituições precisam ser reconstruídas, regras reafirmadas, e a sociedade, protegida. A tutela temporária de um benfeitor pode ser necessária para impedir que o poder de outrora volte às mãos erradas. Não como forma de dominação, mas como contenção do caos.

    Porque onde não há limites ao poder, não nasce ordem — nasce tirania. E onde não há democracia real, não existe povo soberano, apenas uma massa submetida.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Entre o ruído e a lucidez

 

    Há momentos em que um país parece caminhar à beira do despenhadeiro moral: abundância de vitrines e escassez de virtudes. Ostentamos objetos caros, carros brilhantes, casas monumentais — mas, ao fundo, persiste a sensação de que falta um projeto de nação que respeite as pessoas e o que elas constroem. Nessa confusão, reaparecem velhas promessas de sistemas que concentram poder em poucos e infantilizam muitos, transformando cidadãos em dependentes e o Estado em proprietário do que é íntimo: a casa, o trabalho, o futuro.

    Não se trata de nostalgia ideológica nem de fúria partidária. Trata-se de defender princípios simples e duros como pedra: liberdade responsável, mérito com justiça, lei que valha para todos e instituições que não se curvem a caprichos. A Constituição não é enfeite retórico; é pacto vivo que sustenta o comum. Corrompê-la, torcê-la ou ignorá-la é corroer o chão que pisamos.

    Vivemos cercados de narrativas — algumas brilhantes, muitas vazias. A palavra pública perdeu peso; discursos se multiplicam enquanto a credibilidade se retrai. O crime recruta, a escola falha, famílias se desorientam, e a propaganda urbana fantasia uma prosperidade que não toca o cotidiano real. Não se vence esse quadro com gritos, mas com caráter, educação exigente e trabalho competente.

    Virar a página exige escolhas adultas. Não precisamos de salvadores perpétuos nem de veteranos de promessas; precisamos de gente limpa, preparada, com serviço prestado e cabeça arejada. Renovação não é trocar rostos; é trocar práticas: transparência, metas claras, avaliação constante, tolerância zero com a fraude e respeito absoluto ao dinheiro público.

    Somos maiores que o atraso. Uma nação não se ergue contra inimigos imaginários, mas a favor de valores concretos: honestidade, responsabilidade fiscal, proteção dos vulneráveis, liberdade de empreender e de pensar. Sem doutrinas que esmagam, sem cinismo que paralisa. Com mão firme na lei e coração aberto ao futuro.

    Despertar é isso: menos espetáculo, mais substância. Menos idolatria de consumo, mais dignidade do trabalho. Menos slogans, mais resultados. O país que queremos começa na ética do dia a dia e se consolida na escolha criteriosa de quem nos representa. Que vença não o ruído, mas a lucidez.

 *Anderson Castro - Licenciado em Filosofia, Bacharel em Direito e Acadêmico em Medicina Veterinária. 


sexta-feira, 18 de julho de 2025

Reflexões sobre a banalidade política e o esvaziamento do juízo

     

    

    
Vivemos um tempo marcado pela degradação do espaço público e pela corrosão das estruturas que deveriam sustentar a dignidade humana. As ações dos que ocupam o poder, longe de promoverem o bem comum, revelam um desprezo deliberado pela responsabilidade política. A destruição sistemática das instituições, a manipulação da verdade e o abandono da justiça configuram um processo de desumanização que compromete o futuro de nossa coletividade. Em um país vasto e rico como o nosso, é paradoxal e trágico constatar que abundância e diversidade convivem com a escassez moral e o empobrecimento da esfera pública.

    O fenômeno mais perturbador, contudo, reside na passividade e até mesmo na adesão voluntária de parcelas significativas da população ao discurso autoritário e à prática política irresponsável. O que Hannah Arendt denominou banalidade do mal manifesta-se aqui na forma de uma indiferença generalizada, de um conformismo que dispensa o pensamento e renuncia ao julgamento. Não são apenas os líderes que conduzem a sociedade ao colapso, mas também aqueles que, por ignorância ou covardia, escolhem permanecer cegos diante da verdade, preferindo repetir palavras de ordem a pensar por si mesmos.

    Essa abdicação do juízo remete, simbolicamente, ao episódio histórico da escolha entre Jesus e Barrabás. Não é uma comparação teológica, mas um paralelo ético: quando o povo, incapaz de discernir o justo do injusto, opta por manter a violência e sacrificar a razão, revela-se o colapso da cidadania. Arendt nos advertiria que o perigo maior não está no tirano, mas na sociedade que o legitima ao recusar-se a pensar. A crise de nosso tempo não é apenas política, mas profundamente moral: trata-se da incapacidade de distinguir entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso.

    Como saída possível, Arendt apostaria na restauração do espaço público como local de fala, escuta e deliberação. É no encontro plural, na convivência com a diferença e no exercício contínuo do pensar — aquilo que ela chama de vita activa — que podemos reconstruir o tecido esgarçado da vida política. Participar da política não como massa manipulada, mas como cidadão pensante, torna-se um imperativo ético para evitar a repetição dos horrores do passado.

    Por fim, é necessário lembrar que a liberdade, para Arendt, não é um dom passivo, mas uma conquista diária, sustentada pelo compromisso com a verdade, a responsabilidade e a ação. Em tempos sombrios, pensar se torna não apenas um ato de resistência, mas uma forma de manter viva a humanidade em nós. O destino de uma nação, portanto, não se define apenas pelos governantes que elege, mas sobretudo pela qualidade de pensamento e discernimento de seu povo.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

O Ciclo das Civilizações: Ascensão, Queda e Renascimento

     


Desde os primórdios da humanidade, as civilizações seguiram um padrão cíclico de ascensão e queda. Da grandiosidade de impérios como o Romano, Grego e Viking, até a decadência que marcou seus últimos dias, a história parece repetir-se incessantemente. No ápice, essas sociedades demonstraram virtudes, lideranças fortes e avanços culturais. Entretanto, com o passar dos séculos, assistiu-se à degradação dos costumes, das ideias e dos comportamentos, culminando em uma decadência que selou seus destinos.

    Hoje, não é diferente. A nossa civilização, com todos os seus triunfos tecnológicos e avanços sociais, parece trilhar um caminho similar. Observamos uma crise ética e cultural profunda, onde os valores que outrora sustentaram nossa estrutura social estão sendo questionados ou abandonados. A arte, que deveria elevar o espírito humano, frequentemente se torna um espelho das mazelas contemporâneas, exaltando temas superficiais e degradantes. Músicas e peças teatrais com conteúdo impróprio, a ridicularização de práticas religiosas e o desrespeito pelas tradições são apenas alguns exemplos.

Essa degradação também alcança a educação, que deveria ser a base para a formação de futuros profissionais e cidadãos conscientes. As crianças, em vez de serem preparadas para competir em um mercado de trabalho cada vez mais exigente, são frequentemente expostas a doutrinações e valores que não contribuem para seu crescimento intelectual ou moral. Além disso, o sistema educacional, ao permitir que cursos universitários tenham custos exorbitantes, perpetua desigualdades e limita o acesso ao conhecimento.

No campo político e social, a situação é igualmente alarmante. Governos corruptos e autoritários disfarçados de democráticos promovem perseguições e silenciam vozes dissidentes. O respeito aos direitos individuais é frequentemente ignorado, enquanto escândalos e desordens se tornam a norma. Assim como na Roma decadente, vivemos em um cenário de caos, onde a ordem social e moral parece estar em colapso.

Mas, como nos ensinam os ciclos históricos, a decadência é apenas o prelúdio de uma nova alvorada. De cada colapso civilizacional surge a oportunidade de renascimento. Que possamos aprender com os erros do passado e construir uma nova sociedade baseada na justiça, ética e respeito mútuo. Que venha, então, uma civilização nobre, onde o progresso material caminhe lado a lado com a elevação moral e espiritual.


domingo, 29 de dezembro de 2024

Jeitinho Brasileiro: Quando a Criatividade Flerta com a Ilegalidade

        


O chamado “jeitinho brasileiro” é, em sua essência, um reflexo da complexidade ética e moral de nossa sociedade. É uma prática que pode tanto expressar a criatividade e a resiliência de um povo quanto escancarar sua permissividade com atos que tangenciam ou adentram o campo da ilegalidade. Essa dualidade nos coloca diante de questões filosóficas profundas: o que significa ser ético em um ambiente onde a norma muitas vezes é contornada em nome da conveniência?

    Não é necessário observar a esfera política para encontrar exemplos de ilegalidade predatória. Episódios cotidianos revelam o quanto o indivíduo, imerso na coletividade, é capaz de se afastar da virtude e se alinhar àquilo que Aristóteles chamaria de adikia – a injustiça. Um exemplo gritante ocorre quando, diante de um acidente envolvendo um veículo de grande porte, a carga deste é imediatamente subtraída por transeuntes. Não se trata de mera solidariedade ou ajuda em tempos difíceis, mas de um ato deliberado de rapinagem, mascarado pela ideia de que bens materiais, por estarem “expostos”, tornam-se disponíveis.

A Reflexão Jurídica e Moral

    As leis brasileiras são claras ao classificar tais atos como crimes. O furto simples (Art. 155 do Código Penal) abarca o ato de subtrair bens alheios, com pena prevista de reclusão de 1 a 4 anos e multa. A ideia de que a carga estaria “abandonada” é refutada pela lógica jurídica: aquilo que pertence a outrem, mesmo em situação de vulnerabilidade, não perde sua propriedade.

    O furto qualificado (Art. 155, § 4º) agrava-se quando há destruição de obstáculos, ação coletiva ou aproveitamento de calamidade, elevando a pena para até 8 anos. A conduta coletiva, aqui, revela o caráter mais profundo da responsabilidade moral partilhada: quando o indivíduo age em conjunto, sua culpa não se dissolve no grupo, mas se intensifica pela cumplicidade.

    A apropriação indébita (Art. 168) ocorre quando o sujeito decide reter aquilo que encontrou e deliberadamente ignora o dever de restituir. O filósofo Kant, ao falar da ética universal, enfatizaria que a lei moral exige que cada ato seja julgado como se fosse universal. Quem justificaria, então, o furto da carga de um caminhão como prática aceitável se todos agissem da mesma forma?

A Ética do Desrespeito e a Sociedade do Espetáculo

    Mais perturbador do que o furto da carga, no entanto, é a atitude de indiferença e desumanização que acompanha esses eventos. O indivíduo que sofre o acidente não apenas se torna vítima de roubo, mas é exposto ao constrangimento público por parte daqueles que registram selfies com a tragédia. Esse comportamento traduz a lógica da “sociedade do espetáculo” descrita por Guy Debord: a banalização do sofrimento alheio transformado em entretenimento.

    A invasão de supermercados sob o pretexto de fome, por mais que revele fragilidades sociais, não encontra justificativa moral na destruição do bem comum. Da mesma forma, as invasões de terras improdutivas – que nunca se convertem em espaços de produção viável – são frequentemente conduzidas por interesses que não visam a justiça, mas sim o caos. Não há, nesses atos, a busca pela justiça distributiva proposta por Rawls, mas um desvirtuamento dos conceitos de igualdade e solidariedade.

Uma Reflexão Filosófica sobre o Estado da Moralidade

    Essas práticas apontam para um estado de decadência moral coletiva. Se, como afirmou Rousseau, o contrato social é a base da convivência humana, então, o rompimento desse contrato por meio de atos ilícitos – por menores que pareçam – destrói a própria ideia de civilização. É como se, ao justificar pequenos desvios, criássemos um ciclo de permissividade que, ao final, engole qualquer noção de ética pública ou privada.

    A verdadeira questão, portanto, não é apenas o que fazemos enquanto indivíduos, mas o que permitimos enquanto sociedade. Quando o mal é normalizado – seja no furto de uma carga, na invasão de um espaço, ou na exposição da miséria alheia como entretenimento – a coletividade perde sua capacidade de discernir entre o justo e o injusto, o ético e o corrupto.

Uma Jornada de Retorno à Virtude

    O Brasil, com toda sua riqueza cultural e humana, precisa urgentemente revisitar sua relação com a ética. Não se trata apenas de aplicar a lei, mas de resgatar os valores que sustentam uma convivência harmoniosa e justa. Só assim poderemos superar a lógica predatória que permeia tantos aspectos de nossa sociedade e caminhar em direção a um ideal que valorize não o “jeitinho”, mas a justiça, a solidariedade e o respeito mútuo.






sábado, 4 de maio de 2024

Democracia e Pluralismo: Reflexões sobre a Liberdade no Âmbito da Constituição Federal.

    

O princípio do pluralismo político, inscrito no Título I da Constituição Federal, é erigido como pilar do Estado Democrático de Direito. Tal premissa sublinha a importância dessa noção como fundamento para a perpetuação da democracia em nossa nação. Democracia, entendida, aqui, como um sistema composto tanto por direitos quanto por deveres, imputados aos cidadãos sob a égide de normativas constitucionais, emanadas tanto da sociedade quanto da tradição jurídica — escrita ou não — de uma nação.

    No contexto de um Estado democrático de Direito, é imperativo que os direitos fundamentais dos cidadãos não sejam suprimidos sob falsos pretextos ou distorcidos por narrativas espúrias que rotulem a expressão ou opinião do povo e de seus representantes legais como antidemocráticos. Opiniões populares, desde que não sejam ofensivas ou desrespeitosas, são legalmente válidas numa democracia autêntica e legítima. A noção de uma 'democracia relativa' seria, portanto, uma abstração nociva, fruto de mentes deturpadas e malignas, que deveriam ser destituídas de suas funções e submetidas a tratamento adequado.

    Num Estado democrático de Direito, o respeito mútuo entre cidadãos é tanto obrigatório quanto necessário. Somos todos iguais perante a Constituição e frente às leis da natureza ou, se preferir, diante da divindade, conforme cada um escolhe nomear ou venerar.

    As religiões desempenham um papel fundamental no tecido social e são protegidas pela Constituição Federal. É inadmissível restringir o direito de qualquer cidadão brasileiro de seguir a religião que escolher, mesmo que esteja cumprindo pena por transgressões cometidas.

    Além disso, é um direito inalienável o acesso à educação de qualidade, que prepare o cidadão para enfrentar o mundo exterior de maneira eficaz e realista. As crianças, em particular, têm o direito a uma educação que seja fundamentada na dignidade e no respeito à pessoa humana, distante de quaisquer doutrinações políticas ou de defesas medíocres dos interesses pessoais de partidos, ou regimes perniciosos. É crucial uma educação que valorize mestres qualificados e bem remunerados, e que rejeite tentativas de transformar a sala de aula em palco político, independentemente de qual lado venha. Como nos alerta o refrão de uma certa música: "Gente estúpida, gente hipócrita".




 


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Em Busca da Verdade: O Desafio do Relativismo na Filosofia.

Na contemporaneidade, observa-se uma crescente propensão ao relativismo, uma perspectiva filosófica que, embora remonte a Protágoras com sua máxima "o homem é a medida de todas as coisas", parece ter encontrado novo vigor em nossos tempos. Esta doutrina sustenta que a verdade é subjetiva, variando conforme a percepção individual. Entretanto, é imperativo questionarmos: tal visão não conduziria inevitavelmente ao solipsismo, ao ceticismo extremo, onde a comunicação e a compreensão mútua se tornariam praticamente inalcançáveis?

    Em tempos onde frases como "A Democracia é relativa" ecoam nos corredores do discurso público, urge refletir sobre as implicações de tal afirmação. A Democracia, conforme entendida em sua essência e conforme delineada por nossa Constituição Federal, não é uma entidade sujeita às variações do relativismo. Ela é fundada sobre princípios sólidos de liberdade, igualdade e justiça para todos. A liberdade, contudo, não é uma licença para agir indiscriminadamente; é, antes, uma liberdade circunscrita pela moralidade e pelo respeito recíproco, princípios que são universais e inalienáveis.

    O relativismo, ao negar a existência de verdades universais e ao colocar todas as opiniões em pé de igualdade, falha em reconhecer a necessidade de um fundamento sólido para a ética e a moral. Se tudo é relativo, então até mesmo o relativismo se subjuga à sua própria crítica, tornando-se, por sua vez, uma posição insustentável. Este é um paradoxo que não pode ser ignorado.

    Para Kant, a razão humana é capaz de discernir princípios morais universais, que são obrigatórios independentemente das circunstâncias ou das consequências. A ética kantiana, ancorada no imperativo categórico, nos exorta a agir de tal maneira que nossas ações possam ser elevadas ao status de leis universais. Dessa forma, ao nos depararmos com atos ilícitos ou imorais, não podemos simplesmente descartá-los como "relativos". Eles são avaliados à luz de princípios éticos que transcendem as particularidades situacionais.

    Em uma era marcada pela manipulação de narrativas e pela prevalência de "fake news", o relativismo oferece um terreno fértil para a distorção da verdade e a justificação de atos reprováveis. É tarefa da razão crítica, portanto, desmantelar tais falácias, buscando, ao invés disso, uma base sólida para a verdade e a moralidade. A verdade não é uma construção subjetiva, mas uma aspiração objetiva, acessível através do uso diligente da razão.

    Assim, enquanto o relativismo pode parecer atraente em sua promessa de liberdade intelectual, ele, em última análise, nos deixa desarmados diante do desafio de construir uma sociedade justa, ética e verdadeiramente democrática. É, portanto, imperativo que nos voltemos para princípios mais sólidos e universais, capazes de sustentar uma ordem moral e social coesa e justa.