Vivemos um tempo marcado pela degradação do espaço público e pela corrosão das estruturas que deveriam sustentar a dignidade humana. As ações dos que ocupam o poder, longe de promoverem o bem comum, revelam um desprezo deliberado pela responsabilidade política. A destruição sistemática das instituições, a manipulação da verdade e o abandono da justiça configuram um processo de desumanização que compromete o futuro de nossa coletividade. Em um país vasto e rico como o nosso, é paradoxal e trágico constatar que abundância e diversidade convivem com a escassez moral e o empobrecimento da esfera pública.
O fenômeno mais perturbador, contudo, reside na passividade e até mesmo na adesão voluntária de parcelas significativas da população ao discurso autoritário e à prática política irresponsável. O que Hannah Arendt denominou banalidade do mal manifesta-se aqui na forma de uma indiferença generalizada, de um conformismo que dispensa o pensamento e renuncia ao julgamento. Não são apenas os líderes que conduzem a sociedade ao colapso, mas também aqueles que, por ignorância ou covardia, escolhem permanecer cegos diante da verdade, preferindo repetir palavras de ordem a pensar por si mesmos.
Essa abdicação do juízo remete, simbolicamente, ao episódio histórico da escolha entre Jesus e Barrabás. Não é uma comparação teológica, mas um paralelo ético: quando o povo, incapaz de discernir o justo do injusto, opta por manter a violência e sacrificar a razão, revela-se o colapso da cidadania. Arendt nos advertiria que o perigo maior não está no tirano, mas na sociedade que o legitima ao recusar-se a pensar. A crise de nosso tempo não é apenas política, mas profundamente moral: trata-se da incapacidade de distinguir entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso.
Como saída possível, Arendt apostaria na restauração do espaço público como local de fala, escuta e deliberação. É no encontro plural, na convivência com a diferença e no exercício contínuo do pensar — aquilo que ela chama de vita activa — que podemos reconstruir o tecido esgarçado da vida política. Participar da política não como massa manipulada, mas como cidadão pensante, torna-se um imperativo ético para evitar a repetição dos horrores do passado.
Por fim, é necessário lembrar que a liberdade, para Arendt, não é um dom passivo, mas uma conquista diária, sustentada pelo compromisso com a verdade, a responsabilidade e a ação. Em tempos sombrios, pensar se torna não apenas um ato de resistência, mas uma forma de manter viva a humanidade em nós. O destino de uma nação, portanto, não se define apenas pelos governantes que elege, mas sobretudo pela qualidade de pensamento e discernimento de seu povo.

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