Temos dimensão continental, riquezas naturais extraordinárias, diversidade cultural, capacidade produtiva, inteligência, criatividade e todas as ferramentas necessárias para construir uma pátria próspera, justa e respeitada, capaz inclusive de oferecer ao mundo exemplos de equilíbrio, fraternidade, responsabilidade e valores humanos.
Entretanto, o cenário que observamos atualmente causa preocupação.
A violência avança em diversas regiões, organizações criminosas ampliam sua influência e comunidades inteiras passam a conviver com o medo. Muitas pessoas já não se sentem plenamente seguras para circular pelas ruas, utilizar determinados serviços ou simplesmente viver com tranquilidade em suas próprias cidades. Quando o cidadão começa a mudar sua rotina por medo, algo importante dentro da estrutura social precisa ser revisto.
Paralelamente, percebemos uma preocupante deterioração de valores essenciais à convivência humana. Respeito, responsabilidade, honestidade, compromisso com a verdade e consideração pelo próximo parecem, em determinados ambientes, perder espaço para a intolerância, o oportunismo, a desinformação e a busca incessante pelo poder.
Também preocupa o distanciamento crescente entre parte das instituições e a população. Autoridades e instituições públicas existem para servir à sociedade, proteger direitos, garantir o cumprimento das leis e preservar a estabilidade democrática. Quando decisões passam a ser percebidas por parcela significativa da sociedade como arbitrárias, contraditórias ou excessivas, surge inevitavelmente uma crise de confiança.
E nenhuma democracia saudável sobrevive por muito tempo sem confiança em suas instituições.
Escândalos envolvendo integrantes dos mais diversos setores do poder público alimentam ainda mais essa sensação de desgaste. Em determinados momentos, parece que estamos assistindo a um roteiro cinematográfico, tamanho o número de denúncias, disputas, suspeitas, interesses e conflitos que chegam diariamente ao conhecimento da população.
A história demonstra que sociedades enfraquecem quando o poder deixa de ser instrumento de serviço público e passa a ser utilizado como mecanismo de autopreservação, privilégio ou proteção de interesses particulares.
Durante o século passado, episódios ligados ao crime organizado, como aqueles associados à época de Al Capone nos Estados Unidos, mostraram como corrupção, influência econômica, medo e captura de instituições podem contaminar estruturas inteiras da sociedade. Evidentemente, cada período histórico possui características próprias, mas algumas lições permanecem atuais: nenhuma nação deve permitir que o crime, a corrupção ou os interesses particulares se tornem mais fortes que suas instituições.
Outro ponto fundamental é a igualdade perante a lei.
Não pode existir democracia verdadeira quando o cidadão comum sente que determinadas pessoas possuem privilégios ou proteções inacessíveis ao restante da sociedade. Quem pratica crime, independentemente de posição política, econômica, ideológica ou social, deve responder dentro da lei, mediante investigação legítima, provas, contraditório, ampla defesa e julgamento imparcial.
Da mesma forma, ninguém deve ser perseguido ou condenado simplesmente por pensar diferente, criticar autoridades ou questionar decisões públicas.
Democracia não é apenas realizar eleições.
Democracia também significa liberdade de pensamento, liberdade de expressão, pluralidade de ideias, imprensa livre, respeito às instituições, separação entre os poderes, devido processo legal e igualdade perante a lei.
A liberdade de expressão certamente não representa autorização para cometer crimes, ameaçar pessoas ou espalhar deliberadamente falsidades. Mas também não pode ser reduzida apenas às opiniões consideradas convenientes ou aceitáveis por quem ocupa determinada posição de poder. A essência da democracia está justamente na possibilidade de divergência.
Também preocupa a transformação de setores da comunicação em ambientes excessivamente polarizados. Jornalismo deveria buscar fatos, contexto, investigação e responsabilidade. Quando informação e militância se confundem, independentemente do lado político envolvido, quem perde é a sociedade.
O mesmo vale para escolas, universidades e instituições religiosas.
Escolas e universidades devem ser espaços de conhecimento, ciência, pensamento crítico e debate. Professores têm o direito de possuir opiniões pessoais, como qualquer cidadão, mas o ambiente educacional deve estimular os estudantes a pensar, pesquisar, questionar e construir suas próprias conclusões.
A religião, por sua vez, possui uma responsabilidade ainda mais profunda. Sua missão deveria aproximar as pessoas de princípios como amor, caridade, justiça, fraternidade, perdão e dignidade humana. Quando a fé se transforma apenas em instrumento de disputa política ou ideológica, perde-se parte de sua dimensão espiritual.
Nenhuma ideologia deveria ser colocada acima da dignidade humana.
Talvez o Brasil ainda possa, um dia, fazer jus ao ideal de ser chamado de “Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. Mas isso não acontecerá apenas por meio de discursos, símbolos ou expectativas espirituais.
Será necessário construir diariamente uma sociedade baseada em educação, justiça, responsabilidade, honestidade, liberdade, respeito e compromisso com a verdade.
Uma grande nação não é construída apenas pela riqueza de seu território ou pela força de sua economia.
É construída principalmente pelo caráter de suas instituições e de seu povo.
O Brasil possui tudo para ser uma das grandes referências mundiais de desenvolvimento humano, cultural, econômico e social.
O que precisamos recuperar é algo ainda mais valioso que qualquer riqueza mineral ou financeira: a confiança, a responsabilidade coletiva e o compromisso com o bem comum.
Talvez seja justamente essa a verdadeira missão de uma pátria que deseja ser reconhecida não apenas por sua grandeza territorial, mas pela grandeza moral de sua sociedade.

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